…Vou dar a luz

Hoje precisei resolver um problema no banco. Deve estar fazendo uns 200° todos os dias, pensei em vestir algo fresco, confortável mas minimamente apresentável pra sentar a frente de qualquer gerente de banco e ser minimamente respeitada ( o que tem sido bem difícil ultimamente).

Dei aquela olhada no pinterest, não tenho o melhor guarda roupa, tudo custou/custa menos de 50,00, é de malha ou feito pra durar uma unica estação (mas dura 10, 20), mas adaptando bem está tudo lindo.

Não estou a pessoa mais confortável com meu próprio corpo, que mudou demais nos últimos meses, não me reconheço mais, me sentir bonita tem sido difícil, me sentir normal tem sido difícil.

Consegui me vestir, me sentir bem na roupa, vestido e camisa, ficou ótimo, me senti  extremamente profissional e confiante e sai, saia camisa e turbante.

No banco não fui atendida como esperava, fui solenemente ignorada numa agencia semi vazia, no momento em que minha senha foi chamada infelizmente TODOS os funcionários precisaram ir almoçar.  Solicitaram que eu deixasse os documentos e voltasse outro dia, para que eu não me “cansasse”. E para não me cansar mesmo, aceitei a derrota sem entender muito porque infernos eu estaria cansada. Mas logo entendi quando peguei um ônibus e metade dele se levantou, inclusive uma idosa para que eu pudesse me sentar. Meu tamanho indicava que eu só poderia estar grávida, de vários meses, vários. Passei a catraca e mais lugares ficaram a minha disposição. Muito sem graça e morta por dentro, aceitei um deles, me comportei como esperavam que eu me comportasse.

Ainda precisei passar em alguns lugares depois do fenômeno no transporte coletivo, e fui tratada da mesma maneira. Grávida.

Eu ainda estou trabalhando isto dentro de mim, o que significa, o quanto disso molda a pessoa que eu sou. SE DE FATO FAZ ALGUMA DIFERENÇA.

Pode ser o momento, pode ser o tamanho, pode ser a idade, pode ser apenas que eu esteja cansada de sentir o que eu sinto agora.

 

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  • Eu queria te abraçar, ao ler esse texto, apesar de saber que não tem abraço que cure a profundidade que essas feridas são capazes de alcançar.

    Pode ser que não ajude muito também, mas eu queria te contar sobre o dia em que te conheci. (o dia de nos conhecermos ainda não rolou hehe, mas acompanho e admiro sua luta enquanto isso).

    Te conheci no dia do seminário de formação que construímos para a campanha do Reaja ou Será Morta, Reaja ou Será Morto, nesse episódio, na mesa sobre violência contra mulheres no período da tarde começou uma discussão gigantesca sobre mulherismo africana (termo que eu nunca tinha escutado na vida) e você fez uma fala emocionante sobre tudo isso. Saí mto pensativa daquele espaço por várias questões, como a negligencia masculina no espaco de discussão sobre violencia de genero por ex., mas uma das imagens que mais ficou na minha cabeça foi o teu emponderamento e a forma como você falava de cabeça erguida. Sem medo.

    Eu sei como essas coisas tem um poder de desestabilizar a gente que nem damos conta… 4 anos atrás quando eu fui entregar a documentação na faculdade que eu tinha conseguido bolsa, um velho gritou no onibus que eu teria que pagar 2 passagens porque eu “sou fofa, fofa, fofa”. Até hoje sinto um gelado na espinha sobretudo de ódio, porque a única coisa q eu consegui fazer foi descer do ônibus e chorar.

    Não posso dizer que isso vai passar e nem qual é o caminho pra que isso ocorra.

    Apenas saiba que você não está só. E você é foda.

    Abraços.