Amarga

Meu coração amanheceu tranquilo, dia bom de acordar ouvindo música, banho longo e uns minutos de cuidado pra mim. Durou pouco, o amargor foi chegando com a proximidade do contato social, ciente daquilo que eu ouviria.

Estava disposta a não estragar meu dia com isso, já que a noite já tinha sido difícil, pensando no verso que li e mexeu com cada molécula do meu corpo, e naquilo que estou percebendo com o tempo e tem me doído mais do que consigo colocar em palavras.

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Imagem de Bianca Guimarães no seu Instagram

O isolamento social nos colocou pra trabalhar e se relacionar a distância, e espaços e grupos sociais onde o anti racismo é assunto, onde pessoas tentam se desconstruir , se mostram tão racistas como qualquer outro.

Nunca o colorismo ficou tão transparente pra mim. Nunca sutilezas foram tão agressivas.

Olhando nos olhos das pessoas eu consigo me defender, ou melhor eu tenho a força necessária pra me defender e para educar. Em quarentena eu sou menos humana falando através da máquina, meus sentimentos são definidos pelos outros, e pra eles toda fala é raivosa. Tentar explicar o que está acontecendo pra quem acha que “nem tudo é sobre racismo” ou “isso é coisa da sua cabeça” faz com que eu perca a vontade de amar e gostar das pessoas.

Todos os dias eu me sinto mais distante e menos parte. O tom da minha pele me torna diferente até de quem compartilha as dores comigo.

A pandemia parou um processo educacional que eu julgava extremamente importante, quando tudo foi cancelado eu chorei, eu fui “contida e repreendida” na minha dor e eu aceitei estar nesse lugar de ser corrigida, não parecia fazer sentido. Mas os dias passam e fica mais claro que era menos sobre tornar as pessoas melhores como seres humanos, e mais porque era minha única forma de sobreviver ali. Queria que fosse eu fazendo drama, mas não é.

Me dói escolher deixar os meus pra traz, me dói deixar qualquer um pra traz , numa ignorância confortável que um dia vai bater na porta pra cobrar esse monte de certezas limitantes. Eu espero estar longe e não ser lembrada.

Eu estou cansada de ser interrompida. Pela vida, pelas pessoas. Eu sou conhecida por falar enquanto as pessoas ainda estão falando. Nunca me perguntaram porque. Se fizessem saberiam ou reparariam que jamais me dão o direito a fala sem que eu a tome pra mim. As pessoas tem me mostrado que a educação é destinada a quem tem a cor certa, ou se aproxima demais dela, em diferentes proporções é claro. Mas se tem uma palavra que eu escutei pouco nessa vida, foi “me desculpa”.

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imagem — florescer por Marielle

Cada vez que alguém me atropela, imagina coisas sobre mim sem me perguntar, toma meu tempo, se desfaz do meu trabalho, me tira a maternidade, a sanidade, a voz, eu penso em Marielle levantando a voz e dizendo que não seria interrompida. Ali não a calaram , mas continuaram tentando de uma outra forma. Penso que não adianta ter voz em espaços que não são seguros, em lugares aos quais não pertencemos.

Acho que é por isso que eu choro, de dor mesmo, quando penso no único espaço que já foi seguro pra mim. Meu Éden particular de onde eu fui expulsa e os anos passam e eu permaneço caída de joelhos na porta e pedindo: me deixa entrar.

Hoje eu tô amarga, o peito esta pesado, os dentes cerrados impedindo a boca de abrir pra comida entrar ou pra voz sair. Tenho medo que o que está preso na garganta saia e se sair vai cortar igual navalha quem quer que seja. E de Rio eu vou virar Mar, e como sempre serão águas demais.

Tudo isso é sobre ser mais só a solidão da mulher preta, que quanto mais preta, menos humana. Tenho medo de que a gente pare de falar sobre isso, engolidas pelas mudanças do mundo. E se, ou quando, a gente parar de falar sobre nós , serão outras pessoas que contarão nossa história.

Não faz nem um mês que estamos fechadas dentro de casa, e a maioria de nós já virou bicho aos olhos dos outros. Não seria estranho se acuadas como costumam nos deixar, nós passássemos a morder mesmo a mão que alimenta.

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