Se uma verdade fosse contada vocês ouviriam?

Eu tenho passado os últimos meses, quiçá os últimos anos da minha vida sendo ponderada. Ponderando sobre as limitações das pessoas, as necessidades, as possibilidades. Ponderando sobre o que está a meu alcance e sobre tudo que eu posso fazer a respeito, mas sobre tudo e todas as coisas ponderando entre as razões entre o falar e o silêncio.

Em algum lugar pelo caminho entre 2015 e 2016 eu perdi a vontade de falar. Embora possa parecer numa primeira olhada, isto não tem nada de espiritual. Em algum ponto deste caminho começou a me parecer sem sentido dizer qualquer coisa. Sempre que escrevia algo ou pensava em falar algo na sequencia pensava “para que?”. Hoje pela manhã a ficha caiu, não se tratava do “para que” e sim “para quem”. Entretanto acredito mesmo que algumas coisas só saem da gente por escrito.

Acordei pensando nos meus perrengues, em como eles normalmente estão presos a questões financeiras, em como resolvê-los. Pensando nas outras vidas que dependem de mim, no número de respostas que preciso dar para tanta gente ao longo de um dia, que eu nem sai da cama ainda e eu já estou cansada. Só que o problema não é o tamanho do esforço para que um dia inteiro passe, o grande lance é percorrer o caminho no meio de uma multidão e ainda assim estar sozinha.

Não, este não é um texto sobre a solidão da mulher negra, mas também é, não é um texto sobre amores, mas também é, não é sobre maternidade, mas talvez seja e definitivamente não é sobre amizade, mas deveria ser.

Durante o meu tempo em silêncio não deixei de acompanhar s acontecimentos das timelines, ler cada um dos textões que passam por ela, que chegam para mim por inbox, por email, pelo telegram: “Você pode dar uma olhada nisto? ”. Claro, eu sempre posso, e vou absorvendo cada reflexão, cada piada, cada início e termino de relacionamento, cada necessidade e conquista de um trampo, cada pedido de grana ou de roupa. Ou seja, estou em silêncio, mas não estou alheia.

Tá mas e daí? Qual o problema, todo mundo faz isso, pois é eu sei, mas o ponto aqui não é o meu dia a dia e sim o “Claro, eu sempre posso” e o que isso fez com a minha vida.

Eu menti quando disse que meu primeiro pensamento quando acordei foi sobre como resolver perrengues. O primeiro pensamento foi: se eu, assim como a Hanna Baker de 13 Reasons Why deixasse áudios explicando os meus porquês, será que vocês ouviriam? E se ouvissem, lavariam as mãos, continuariam os mesmos, ou mudariam? Pensariam sobre as facadas nas costas, as puxadas de tapete e as frases cruéis? Sobre ser omisso? Mentiriam sobre um universo de coisas para parecerem legais? Continuariam lembrando de mim para pedir trabalhos gratuitos e favores e na primeira oportunidade de poder pagar fazer isto a qualquer outra pessoa? Continuariam me fazendo de “amiga para trepar” quando não se tem mais ninguém, esquecendo da minha existência quando encontram seus novos amores e lembrando de mim novamente quando estas relações terminam? Eu ainda seria lembrada como a pessoa substituta?

Será que vocês teriam como ao menos responder porque eu? Ou se entendem como a coisinha pequena e desonesta que vocês fazem e que “não dá nada”,quando acumulada para alguém vira algo imenso?

Falling Girs — Manddy Wyckens

Eu me conheço bem, e uma das coisas que mais detesto em mim é como a necessidade de agradar tem um poder enorme sobre mim. Eu não aprendi dizer não. Desde criança escutando seja amável, agradável, simpática. Isso se traduziu na minha vida em um monte de SIM, não importa se eu posso ou não, se eu quero ou não, se é possível ou não. Importa é que se acontecer as pessoas ficarão felizes comigo e isto pode gerar carinho, amizade, amor, companhia. Migalhas de afeto.

E amiges, vocês não tem ideia do peso disto todos os dias.

Eu dei o azar de carregar nas costas o estereótipo da preta raivosa. Isto tem me roubado a alegria a um tempo, e eu estava convicta de que tinha sido assim a vida toda, mas querem saber a real, não foi não.

Ganhei está “fama” horrorosa através dos olhos dos meus “amigos”, era interessante ter um leão de chácara para usar de escudo. Deve ser bom ser defendido, cuidado, e ter com quem contar para assumir nossos erros o tempo todo, deve ser melhor ainda não precisar arcar com consequências. Na necessidade de agradar fui escudo. Aos olhos desatentos do público virei um personagem dotado apenas de força e sentimentos que só poderiam ser: inveja, soberba, arrogância. E vilões tem outras características?E se esta na internet…

Apoiei e construí mundos dos quais não estou convidada a participar, paguei e pago contas que não me pertenciam ou me pertencem, e quando paro friamente e penso porque faço isto comigo se me mata um pouco todo dia a resposta que ecoa lá no fundo da alma é: talvez ainda gostem de mim, talvez role um pouco de consideração. É burrice eu sei, mas não entendo e nem sei como lidar com este comportamento destrutivo.

Mas para além de todo o “drama” e já me ensinaram que “ninguém se interessa por drama” eu vou além nos meus questionamentos porque gostaria mesmo de saber porque somos tão superficiais nos nossos afetos, porque quando alguém fere a gente a etiqueta nos pede afastamento e não dialogo.Eu gostaria muito de poder chegar em cada pessoa que me feriu de morte e contar que eu fui ferida sem que isto virasse uma guerra entre nós. Gostaria de poder chegar em pessoas que sabem que me magoaram e dizer: foi assim, eu entendo e está tudo bem, segue o barco. Eu sei quando eu magoo alguém, sei quando faço algo errado e luto loucamente para ao menos mostrar que me importo, então é difícil acreditar que ninguém mais perceba quando é escrotinho. Por essas e outras não acredito em pedidos de desculpas, normalmente a gente faz as coisas na intensão de fazer, e isto não é o problema, o problema é o que a gente faz depois, com aquilo que nós já fizemos.

Eu gostaria de não assumir problemas dos outros como meus, de dizer muitos não, de não sentir que é obrigação minha ajudar outro preto ou preta a avançar, gostaria de não ter atribuído a mim brigas das quais não participei, de ter meu espaço respeitado, gostaria de voltar no tempo e não permitir cada pisão e que neste voltar no tempo minha imagem não tivesse sido manchada pelo personagem que criaram pra mim, gostaria de não me sentir culpada por coisas que eu não fiz. Gostaria que a minha verdade fosse considerada no meio da verdade que vocês decidiram tomar pra si. Gostaria que não fosse de fato preciso deixar nada gravado pro futuro, pra contar que as coisas foram assim num passado e não lamentar como a gente perde tempo e a vida por um punhadinho de amor.

Ainda estou aqui avaliando se vale a pena quebrar o silêncio, falar sobre a distância entre militar e massacrar, entre objetivo de vida e obrigação, entre ter companhia e ser amado, entre deixar a pessoa na dela e abandono, entre ouvir um boato e silenciar diante da inverdade e apunhalar alguém pelas costas, entre omitir credito e roubar (aqui não tem diferença pra explicar tá).

Já pararam para pensar como iniciam os abusos e o quão agressor (a) você pode ser?

Eu passo muito tempo pensando nisto. E na dor de se sentir assim sem chão, de não me achar no direito de abrir a boca e gritar, de só poder falar do coletivo e nunca do individual porque não é cool e não salva ninguém.

Será que não salva?

Mas e se uma verdade fosse contada vocês ouviriam? E se ouvissem o que fariam com isso?

Talvez depois de tudo me perguntassem “Você pode?” e eu responderia: “Claro, eu sempre posso”.

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